125 anos depois da visita
A semana em que o Rei D. Carlos veio caçar à Isna e mandou fazer a fonte
A caçada que o Rei D. Carlos fez na Isna, entre 17 e 22 de novembro de 1901, mantém-se viva na memória daquela freguesia e do concelho de Oleiros. O monarca, que reinou entre 1889 e 1908, ficou conhecido pela sua veia diplomática e pelo gosto que tinha para com a natureza e a arte.
Apesar da grande distância entre Lisboa e o concelho de Oleiros e das vias de comunicação serem quase inexistentes, D. Carlos manteve-se firme no objetivo de se deslocar até à Beira Baixa e de pernoitar naquela aldeia. Antes de regressar ao Palácio Real acedeu ao pedido de três mulheres (Maria Ribeiro Fandiga, Ana de Jesus e Maria Jorge) para a construção de uma fonte no centro da aldeia, ainda hoje existente e com a traça original. A história deu origem a uma exposição que pode ser vista na Galeria das Devesas Altas, em Oleiros, organizada pela arquivista municipal, Carla Mateus.
Coube ao padre João Barata Dão, pároco na Isna, a responsabilidade de preparar as montarias e o acolhimento. “Custa-me a crer que Sua Majestade se venha albergar numa casa tão inferior, apesar de ser a melhor desta aldeia. Em todo o caso, o meu amigo não me há-de dar culpas dos incómodos que S. Majestade e seus amigos por aqui passarem. Com respeito a caiar e olear a casa, não há nesta freguesia quem saiba fazer estes serviços”, escreveu então o prior, numa declaração que viria a ser transcrita no livro «Passagens do livro O Rei D.
Carlos I e a Beira Baixa de Jaime Lopes Dias», editado em 1962 pela Academia das Ciências.
A visita real exigiu superação na criação de condições para que sua alteza e a sua comitiva ali pudessem pernoitar. “Para se fazer uma ideia do que representou a organização da caçada de Isna, bastará dar um resumo do que para ali foi levado e consta dos documentos arquivados por Tavares Proença: Móveis - Mobília completa para o quarto de El-Rei, que, no dizer de Malaquias, preferia cama de ferro; 10 leitos de ferro, 36 cadeiras, 10 lavatórios, 40 cobertores, lençóis, enxergas, candeeiros, braseiras, etc., etc., além dos serviços correspondentes de louça e vidros, faqueiros e fogões...”, explica Jaime Lopes Dias nesse seu volume.
A escolha da data não resultou do acaso. “A caçada realizou-se de 17 a 22 de Novembro de 1901, por o dia 4 ser o onomástico de D. Carlos e, em 14, fazer anos o Infante D. Manuel”, é referido naquela obra.
João Barata Dão sabia a responsabilidade que tinha sobre si. Preparar uma visita régia exigia detalhe e rigor. Conhecedor da região e das suas gentes, absorveu o entusiasmo da população que, pela primeira vez, iria estar com o Rei. “Durante quatro dias, D. Carlos fez da Isna o centro da sua estadia e das atividades cinegéticas, num acontecimento que permanece profundamente associado à memória da freguesia. A tradição local consagrou este período como aquele em que a povoação se transformou, simbolicamente, no “Paço Real” da Isna”, revela o texto associado à exposição patente em Oleiros.
O monarca, apaixonado pela caça, era conhecedor da diversidade cinegética que a região da Isna detinha, com presença de javalis e outras espécies de maior porte. A proposta efetuada ao Rei era clara: “Há meio de caçar proveitosamente os javalis e lobos durante quatro dias na freguesia da Isna de Oleiros. [...] Feita esta batida El-Rei recolheria à Isna. No segundo dia determinaria El-Rei a batida da Ribeira da Isna, em face do Cabeço Rainho, a qual batida com a ida e volta à Isna preencheria o dia quase completo. [...] Foram preparadas duas pequenas casas que há em Isna, para o receber, posto que miseravelmente, o melhor que era possível naquele país incivilizado e inculto”.
O texto transcrito no livro de José Lopes Dias demonstra o cuidado que João Barata Dão emprestou à preparação da caçada real. “As montarias do 3.º dia realizaram-se nas Arneiras de Roda, onde D. Carlos abateu um javali com 82,5 quilos. Ficou tão contente quando via cair a fera que, apesar do seu peso, saltou com a agilidade de um rapaz por cima do mato e das pedras. [...] O rei, sua gorrasinha na cabeça, passeava pela noite, na Isna, sozinho, como se estivesse no jardim do seu próprio palácio. O pequeno povoado viveu os dias da caçada real em verdadeira festa...”, recorda o mesmo livro.
Receber o Rei exigia protocolo e segurança. Jaime Lopes Dias descreve a chegada e a estadia na aldeia: “A caravana seguiu para Sobreira Formosa e Catraia Cimeira, até ao limite da freguesia de Isna onde era esperada pelo povo desta aldeia e de outros lugares dos arredores vindo de propósito para ver o Rei. O povo da Isna esperava o Rei por entre aclamações e vivas entusiásticos com açafates de flores que lhe despejou sobre a cabeça!”.
D. Carlos ficou hospedado com “Malaquias de Lemos e Tavares Proença, em casa de António Ribeiro, e os restantes em casa do Sr. António Farinha Rafael”.
A cama do Rei partiu-se
Embora tudo tivesse sido preparado ao pormenor, a primeira noite ficaria marcada por uma pequena queda de sua majestade no quarto.” Vive na tradição que na primeira noite, talvez devido ao peso do Rei, talvez deficiente montagem da cama, esta abateu, facto que em vez de arrelia constituiu motivo de alegria para sua Majestade que desatou em grande gargalhada”.
A proximidade do Rei para com a população encheu de coragem as habitantes Maria Ribeiro Fandiga, Ana de Jesus e Maria Jorge, que de forma educada e determinada lhe fizeram o pedido para que fosse construída, no centro da aldeia, uma fonte de água. A população era abastecida pelas chamadas fontes de chafurdo e a coragem daquelas mulheres mereceu a concordância do monarca: “Ficai descansadas que será atendido o vosso pedido. Tereis a fonte”, disse D. Carlos. E a ‘bica’ ali permanece, tendo a graça de Fonte das Mulheres, em homenagem às três populares que fizeram o pedido.
Na hora de regressar a Lisboa, D. Carlos mostrou todo o seu agradecimento e abraçando o Padre João Barata Dão, disse: “não quero ainda morrer sem aqui voltar outra vez à Isna; mas então serão mais alguns dias. Não te deixes cá morrer!”.
Posteriormente D. Carlos escreveu ao amigo Francisco Tavares Proença, que colaborou na organização da caçada e da estadia: “Venho mais uma vez agradecer-te a perfeição com que tu arranjaste tudo! Não se podia fazer melhor! Fico com imensas saudades dos bons dias da Isna e do companheiro que tu és”.
Exposição até 29 de novembro
A exposição “D. Carlos I na Beira Baixa - Memória de uma Visita Real” está patente até ao dia 29 de novembro na Galeria Municipal de Oleiros. A mostra assinala os 125 anos da passagem do monarca pela Isna, ocorrida em novembro de 1901.
A mostra, organizada pela arquivista municipal, Carla Mateus, tem os apoios da Fundação Casa de Bragança, Associação Real de Lisboa, Casa da Comarca da Sertã, Associação de Caça e Pesca da Sertã, Associação de Caça e Pesca de Oleiros, Américo Afonso e João Nuno Reis.
Segundo o município, a mostra - patente até ao dia 30 de novembro –“a exposição organiza-se em vários núcleos temáticos que permitem revisitar este acontecimento histórico. Um dos núcleos dá a conhecer algumas das espécies animais que o rei poderia encontrar nas serras do concelho. Outro recorda o episódio de três mulheres que se terão reunido para pedir ao monarca a construção de uma fonte, revelando uma dimensão mais humana e próxima desta visita”.
A exposição tem um terceiro núcleo, “através de fotografias da comitiva tiradas nas serranias de Oleiros, complementadas por cartas militares onde foram assinalados os percursos realizados, os visitantes poderão acompanhar os trajetos da caçada e conhecer melhor os lugares que marcaram esta passagem. Por fim, a mostra conta com um núcleo dedicado ao regicídio de D. Carlos I, realizado com a colaboração da Casa da Comarca da Sertã e do Dr. João Nuno Reis, reunindo fotografias históricas sobre o assassinato do rei, que estiveram em destaque numa exposição na freguesia da Isna, em 2024”.